Entrevista c/ Helena Kendall (segunda parte)

O Obturador do Pensamento viajou até à cidade do Porto para estrear a rubrica que recentemente apresentou na página do facebook e no instagram: "Obturar falando..." uma conversa informal com personalidades ligadas à área da fotografia, das artes, do pensamento. Falar sobre a nossa primeira convidada é falar sobre música. Helena Kendall nasceu no Porto a 20 de Outubro de 1995. Oriunda de uma família muito musical foi no piano que deu os primeiros passos mas uma guitarra como prenda de anos despertou mais interesse, começou a aprender sozinha e a compor as próprias canções. O tema "Saltiness" foi em escrita em condições especiais fruto de uma experiência de 2 meses de voluntariado na ilha do Sal - Cabo Verde com apenas dezoito anos. As suas referências vão de Rui Veloso a Bob Dylan passando por Mallu Magalhães e Miguel Araújo - com quem de resto - partilhou o palco no tema "No Rancho Fundo" num concerto solidário no Seminário do Vilar, no Porto, onde tem vindo a apresentar-se no formato de banda "Os Kendall" e também com "Meninos do Coro" que ajudou a fundar. 

Se a música foi motivo de conversa na primeira entrevista, nesta incidimos sobre o Festival da Canção, da sua forma de estar na música e na vida. De sorriso fácil, Helena passou uns minutos à conversa connosco no Jardim das Oliveiras tendo por fundo a Torre dos Clérigos. Em véspera de rumar à capital para se apresentar ao país e ao mundo com "Andamos no céu" do compositor João Só aqui fica a nossa entrevista. 

Obturar Falando - Helena, mais uma vez obrigado pela disponibilidade de uma entrevista em véspera de um momento importante na tua vida. A primeira pergunta na primeira parte da nossa conversa foi se de acordo com o nome da canção se andavas no céu. Disseste-me que sim. É como te sentes hoje? 
Helena Kendall - Sem dúvida. Acho que agora mais do que nunca até pelo que significa estar no festival, sempre fui um bocadinho aluada, posso dizer que tenho a cabeça nas nuvens, mas sem dúvida que ultimamente ando no céu. 

OF - Recebeste o convite do João Só e pensaste ser uma brincadeira do próprio autor. Estavas a passear pelo Porto com uns amigos. Precisas do Porto para ser quem és? 
HK - Sem dúvida alguma, nasci aqui, moro aqui desde sempre, acho que não é preciso muito para se apaixonar pelo Porto. Todas as circunstâncias e lugares em que está inserido a nível turístico falam por ele próprio, é como tudo: uma inspiração. É uma cidade com zonas distintas e muito bonitas. Acho que sobretudo gosto das pessoas, são genuínas e de uma simpatia fora do normal. 

OF - O sorriso é uma arma que vais utilizar para cativar o público do festival? 
HK - Sim, claro! Acho que é uma coisa natural em mim e que não posso deixar de usar quando estiver no festival. 

OF - Na primeira parte da nossa entrevista referiste que vens de uma família muito musical e que sempre gostaste de cantar e escrever. Como é que eles reagiram à notícia do festival? 
HK - A primeira reação não foi muito boa, ficaram assim um bocadinho assustados com a exposição que isso implica mas aos bocadinhos foram-se apercebendo que o festival este ano tem uma cara nova, uma estrutura nova. Hoje em dia dão-me um maior apoio. 

OF - O tema "Adeus" foi escrito num momento particularmente triste da tua vida. A música ajuda a exorcizar os fantasmas? 
HK - Não foi escrita totalmente num momento triste. Foi o culminar de muitos anos de saudade. Acho que de certa forma me ajuda a estar em paz e a retirar as melhores coisas (e não as más!). 

OF - O que sentes quando ouves as palavras Voluntariado / Cabo Verde? 
HK - (Neste momento, Helena sorriu timidamente para o lado, percebendo (nós, equipa) que é uma tema especial) - É um misto muito grande de sentimentos, de muita saudade, alegria mas acima de tudo uma aprendizagem, trouxe muito de lá e também mudei muito, mudei a minha maneira de ser desde que vivi e senti novas realidades, isso mudou-me muito... 

OF - Retirado de uma frase tua: "... A música é uma ferramenta simples mas poderosa que me permite chegar mais perto de quem me rodeia e transmitir muitas ideias e estados de espírito. Acredito que a música faz mais sentido quando tem por bases bons valores e acções e sinto que fiz um bom caminho até agora, com muita sorte à mistura...". Que qualidades ou valores consideras essenciais numa pessoa que queira singrar na música? 
HK - Acho que a maior qualidade de todas tem que ser sempre a humildade, não só nos primeiros momentos mas sempre durante toda a carreira. Depois é a perseverança, a vontade de trabalhar sempre e acho que muitas vezes temos de ter a consciência que não podemos desanimar porque o mundo da música não é fácil de maneira nenhuma, tem os seus altos e baixos, por isso é preciso muita força para ir longe, também. 

OF - O que te dizem estes nomes: Simone de Oliveira / Paulo de Carvalho / Lúcia Moniz.
HK - Talvez o que goste mais, a actuação que conheço melhor é a da Lúcia Moniz, vejo muitas vezes. É uma actuação que gosto particularmente, tem a sua piada, a voz da Lúcia é inconfundível. Os outros dois não me dizem grande coisa, conheço algumas músicas mais antigas do festival mas nada de especial. 

OF - João Só referiu que não pensou neste tema quando o escreveu para o Festival , podendo ser incluido num álbum a solo. Fala-nos um bocadinho do "Andamos no céu". 
HK - É uma balada muito característica do João Só, acho que qualquer pessoa que ouça consegue logo associar ao compositor mas por outro lado consegui torná-la um bocadinho minha, a letra faz muito sentido em mim e na minha vida. Depois tem uma carga instrumental muito forte, muito boa. Está muito bem montada, um óptimo arranjo e acho que não e a típica balada que o pessoal está à espera, monótona. Acho que tem muita vida e muito significado. Acho que as pessoas vão gostar, é uma bonita história de amor. 

OF - O sonho comanda a vida. Até onde esperas que te leve o sonho do festival? 
HK - Eu espero que o festival de certa forma sirva para eu aprender mais, para me lançar de alguma forma, para dar a conhecer a minha voz, a minha cara, a minha música e que isto seja só o primeiro passo da minha carreira. 

OF - Quais são os teus hobbies? 
HK - A música, claro (sorriso!) em primeiro lugar. Depois gosto de estar com os amigos, da fazer jantaradas. Mas não considero o voluntariado propriamente um hobby, acho que é uma maneira de estar, de ser, de me conhecer, ocupa muito tempo, faz parte também do meu tempo livre. 

OF - Uma das tuas referências é o Miguel Araújo. Como te sentiste quando o conheceste e quando partilhaste o palco com ele no tema "No rancho fundo"? 
HK - Foi muito boa. Tal como eu há bocado referi que os valores que um músico deve ter, acho que o Miguel é a cara da humildade e da descontração, e tanto como pessoa e como músico ele é exatamente a mesma coisa o que é muito bom, não há uma discrepância. É muito simpático e de uma certa forma até sensível e gostei imenso de partilhar o palco com ele. 

OF - Em quem vais estar a pensar quando pisares o palco do festival na canção número cinco? 
HK - (Helena sorri e diz) - Essa é confidencial, estou a brincar. No meu namorado - Francisco - de certa forma o João também o conhece e tenho a certeza que quando escreveu a música escreveu de uma forma em que eu pudesse senti-la como verdadeira, sei também que teve esse cuidado, é quase automático. 

OF - O reconhecimento público é algo que te assusta ou nem por isso? 
HK - Não. Acho que não. Acho que isso também depende muito da pessoa, a maneira como encara a questão da fama, do reconhecimento. Isso não é uma coisa que me assuste. 

OF - Se Portugal fosse uma canção que título lhe darias? 
HK - Isso é difícil... não sei muito bem. Mas teria de certo alguma coisa a ver com a natureza, que é algo que gosto imenso no nosso país. Talvez qualquer coisa como "Montes e Vales", qualquer coisa do género.





Entrevista: Francisco Milheiro  
Fotografia (making-of): Pedro Fonseca
Agradecimentos: Helena Kendall 



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