"Grão" de conversa com Liliana Félix

O Grão - Projecto de Voluntariado Internacional leva esta noite (dia 15 de Abril) ao palco do Casino de Espinho um espectáculo para angariação de fundos para mais uma missão no continente Africano. A Liliana Félix - espinhense de gema esteve à conversa com o Blog do Obturador na sua tradicional rubrica "Obturar Falando" em que nos fala sobre a sua experiência no voluntariado (actualmente com o CASA - Centro de Apoio aos Sem-abrigo do Porto). Convido-vos sinceramente a ler a entrevista. No final têm um NIB do projecto e podem visitar a página e derreterem-se com os sorrisos de quem tem pouco. 


OP - Liliana, bem-vinda ao Obturador do pensamento. Sendo esta uma plataforma de pensamentos e imagens, que pensamento te surge quando vês uma imagem feita numa missão?
LF - Obrigada Francisco, é um prazer enorme conceder-te esta entrevista. Temo não saber transmitir por palavras o que sinto quando olho para as fotografias tiradas em missão. Acaba por ser um misto de sentimentos muito grande: primeiro começa por aumentar a vontade de estar naquele lugar, conhecer as pessoas, sentir-lhes o cheiro e viver um bocadinho nos seus braços. Em segundo, foco-me muito no brilho que transmitem no seu olhar, é praticamente impossível passar ao lado. Há nos olhos de todas elas muitas histórias para contar e isso faz-me ficar presa, como se quisesse descobrir quem são. Por último, aquelas onde aparecem voluntários que já foram em missão, representam o que é ser feliz com muito pouco. Transparecem um amor muito grande pelo outro o que me deixa derretida!

OP  - Já conheces o projeto grão há muito tempo?
LF - Desde que me conheço sempre tive o bichinho de fazer voluntariado internacional. Sentia sempre que eu, enquanto Liliana, tinha de me fazer cumprir numa realidade diferente daquela na qual vivo. Este bichinho fez-me imensas vezes andar à procura de projetos onde fosse possível realizar esta vontade, mas admito que inúmeras vezes fiquei só mesmo pela vontade… havia uma força maior do que eu que me dizia “ainda não é o momento”. Há mais ou menos dois anos uma amiga começou a formação no Grão. Ia vendo as suas partilhas, de vez em quando conversávamos sobre o projeto, o que ia fazendo, as dinâmicas desenvolvidas e eu ficava fascinada… Não só por gostar da forma como se organizavam, mas porque toda ela brilhava cada vez que se falava do Grão que eu pensava sempre “o que é que se passa ali?”. Sem querer comecei a desenvolver um carinho pelo projeto e fui acompanhando ao longo deste tempo o que se ia passando até que, este ano, juntamente com a minha prima e uma amiga decidi ir à noite de arranque experienciar o que é o Grão. Garanto que não podia ter tomado melhor decisão!



OP - Se voluntariado fosse um sentimento, qual seria no teu ponto de vista?
LF - Amor, sem dúvida. Às vezes sinto que há uma dificuldade muito grande na sociedade em entender o espírito do que é ser voluntário. É muito mais do que vestir uma camisola, defender uma causa, proclamar uma crença, servir uma refeição quente, seja o que for… Ser voluntário é dar-se sem esperar nada em troca, é ser-se maior do que a sua altura, é o saber estar por estar, é ver no olhar do outro a esperança de que tudo pode resultar, é ter um olhar atento por quem está à nossa volta e é, sem dúvida, acreditar no Ser Humano independentemente das suas escolhas e do que o destino reservou para si. Que mais poderia chamar a isto se não amor?

OP - A geração "net" que opinião tem sobre uma missão? E sobre voluntariado?
LF - Tenho uma certa dificuldade em responder a esta questão porque, felizmente, sempre me rodeei de pessoas que não têm uma opinião tão diferente da minha no que toca a este assunto. Se pensar um pouco sobre as novas gerações é fácil dizer que uma grande maioria não tem noção do que é fazer uma missão, do que implica, do que está em causa… Aliás, quando se fala em fazer voluntariado internacional toda a gente diz sempre que adorava ir, mas fica-se por isso. Já no que toca ao voluntariado, cada vez mais se vê as novas gerações a fazê-lo. Os media têm tido um grande contributo para isso, assim como as escolas e alguns incentivos familiares o que me deixa muito feliz. Sou da opinião de que, quanto mais cedo nos sabemos colocar no lugar do outro e percebemos o quão sortudos somos por tudo o que temos, estaremos a contribuir para sermos cidadãos mais cívicos e atentos ao longo da nossa vida.


OP - Alguém da tua família ou próximo fez parte de uma ONG?
LF - Que me lembre, não.

OP- A tua área de estudo superior é a educação. Para ti como seria um dia como professora num país como Moçambique?
LF - Já imaginei este cenário milhares de vezes…Sempre tive uma paixão enorme pela área da saúde e, quando chegou a altura de ingressar no ensino superior, as minhas escolhas estavam ligadas a isso. Infelizmente, como tantos outros estudantes, os exames cortaram-me as pernas e tive de encontrar outras áreas de que gostasse. Confesso que não foi fácil e lembro-me de, no dia em que me inscrevi na faculdade, dizer à minha prima Mafalda “eu não vou durar aqui mais de um mês, eu não quero nada disto”. Mas estava redondamente enganada e hoje entendo que eu não podia fazer outra coisa! Apesar da minha frustração inicial, de achar que a educação não era para mim, reconheço que Deus me colocou no caminho certo e me mostrou qual é a minha missão. Durante a licenciatura senti enumeras vezes que a educação em Portugal não é valorizada, principalmente a educação primária. Faz-me imensa confusão que toda a gente julgue que pode contestar o trabalho de um Professor quase como se todos tivéssemos capacidade de o ser, o que não é verdade! Este meu sentimento fez-me procurar novas realidades, outras perspetivas, entender onde de facto é preciso levar instrução no seu nível mais básico. Agora, já a frequentar o mestrado, e cada vez mais afirmando a minha posição metodológica e ganhando consciência daquele que quero que seja o meu contributo para a educação, tenho o desejo de terminar o curso e ir para África. Há imenso trabalho a ser feito e é preciso dar aquelas pessoas oportunidades. É necessário torna-las capazes e dar-lhes condições para poderem construir o mínimo. Todos nós sabemos que só através da educação é que isso se torna possível. Imaginar-me como Professora numa realidade destas é absolutamente gratificante. Os recursos são raros, existem condições mínimas e nada se compara ao conforto de uma sala de aula portuguesa, mas o sentimento de missão cumprida e a garantia de que estou, realmente, a fazer a diferença supera tudo o resto e leva-me a imaginar cada vez mais este cenário como o real.



OP - Principais barreiras quando queremos fazer parte de um projeto que nos leva a um continente como o Africano.
LF - Até ao momento não encontrei nenhuma barreira ao fazer parte deste projeto. Acredito que isto aconteça porque o Grão tem princípios gerais muito bem definidos e estruturadas, para além de ter à frente uma equipa competente e responsável que orienta tudo da melhor forma. Talvez este seja o momento para explicar com clareza o que é realmente, o Grão. Quando falamos do Grão, falamos de um projeto de voluntariado internacional formado por estudantes universitários e jovens profissionais, com inspiração Jesuíta. Nasceu como resultado da vontade de criar, no seio do Centro de Reflexão e Encontro Universitário Inácio de Loyola (CREU-IL, Centro Universitário da Companhia de Jesus no Porto), um projeto de voluntariado missionário voltado para a intervenção nos PALOP. Tem como objetivo principal promover a formação dos seus voluntários no sentido de os dotar das competências necessárias para a realização de Missões para o desenvolvimento, de curta duração, realizadas em países Africanos de expressão Portuguesa durante os meses de Verão, em cooperação com ONG’s e outras organizações locais. Estas Missões colaboram com outras já existentes no local e que estão ligadas a ordens religiosas católicas e pretende-se que as missões do Grão estejam numa lógica de inserção e inculturação, para que a sua intervenção seja focada no desenvolvimento comunitário, formação/educação e promoção da integridade individual e autonomia das populações através da capacitação de jovens locais. Para que tudo isto seja possível, o Grão promove um plano de formação anual para que os voluntários se dotem de uma série de competências necessárias para a realização das Missões, como por exemplo, através de trabalho voluntário junto de organizações parceiras em Portugal. Trata-se de um projeto autofinanciado e que vive muito da boa vontade e generosidade das pessoas, assim sendo, em paralelo a esta formação realizam-se atividades de angariação de fundos que vão financiar as missões em cada ano, promovendo a divulgação e garantindo a sustentabilidade financeira do projeto. Todo este caminho longo e exigente, mas sempre livre e aberto, guia-se por quatro pilares fundamentais: o Serviço, a Comunidade, o Compromisso e a Espiritualidade que regem todos os passos do Grão. Esta descrição permite que se tenha uma ideia muito geral do que é este projeto, mas acredita que só quem o vive de perto consegue perceber o quão exigente é todo este caminho. Como disse inicialmente, ainda não senti barreira nenhuma, mas sei que outras pessoas no meu lugar poderiam não aguentar toda esta exigência ou sentido de compromisso. Se pensar noutros projetos que permitem a realização de voluntariado internacional, posso incluir a barreira financeira porque nem todos são auto financiados e a vontade de ir nem sempre tem uma retaguarda que permita a sua realização, infelizmente.

OP - Portugal é solidário por natureza? Perspetivas para este espetáculo de dia 15.
LF - Portugal consegue sempre surpreender-me no que toca à solidariedade, especialmente porque quem menos tem é quem mais dá e isso é de uma generosidade fantástica! Pegando no exemplo do Grão, há mais de 10 anos que envia voluntários para África contando com a solidariedade de todos os seus parceiros e das pessoas que participam, ativamente, em todos os eventos que vão sendo realizados o que demonstra que há muito boa gente entre nós. No que diz respeito ao espetáculo, estou bastante confiante. A cidade que nos acolhe é a minha e Espinho é um local de gente boa, positiva e humilde o que me leva a acreditar que podemos ter uma sala cheia!

OP - Espinho é a cidade onde nasceste. Levar o nome da tua cidade em missão que sentimento te transmite?
LF - Nunca tinha pensado nisso. Não nego as minhas origens! Sei de onde venho, onde cresci e as minhas raízes estão nesta cidade. Conheço os cantos à casa, sei de que fibra são feitas estas pessoas, o que as faz felizes e o que as move todos os dias. É uma cidade pequena, mas quem cá vive trás consigo um orgulho gigante no coração que eu nem sei bem explicar por palavras. Espinho, dentro da sua população jovem, tem uma série de elementos ligados a projetos de voluntariado assim como pessoas que já tiveram a oportunidade de realizar missões em áfrica. Tenho a certeza que nenhuma delas, assim como eu, esperam algum reconhecimento por parte da cidade pelas suas ações aliás, todos nós nos sentimos reconhecidos quando estamos em contacto com quem precisa de nós. Considero apenas que Espinho devia usar estes jovens como exemplos e estar mais atenta às suas potencialidades porque todos nós temos uma voz ativa mas, por vezes, a população não tem a abertura necessária para isso.



OP - O sorriso de quem tem pouco é um "soco" a quem se queixa de barriga cheia?
LF - Às vezes nem é o sorriso, são as histórias que nos contam. Dou um exemplo que me vem imensas vezes à memória e que me aconteceu no voluntariado que estou a fazer no C.A.S.A. (Centro de Apoio ao Sem Abrigo), no Porto: numa das terças feiras de Restaurante Solidário, senta-se na minha mesa um casal. Todas as questões que fui colocando, foram-me sempre respondidas pelo homem enquanto a sua mulher mantinha os olhos postos no chão… esta atitude inquietava-me tanto que continuei a colocar-lhe questões, mas sem sucesso. Chegou o momento de lhes levar a sobremesa, escolho um bolo para cada um e o respetivo café, entrego e a mesma mulher que até então não me tinha respondido começou a chorar. Fiquei ainda pior e, na minha mais sincera inocência, perguntei se não gostava do bolo ao que o senhor me pede que, se possível, o trocasse por outro com chocolate. Chego à mesa com um novo e digo “gosta mais deste?” e, passado cerca de quinze minutos de silêncio, a senhora olha-me nos olhos e diz “obrigada menina, eu já não como chocolate há um ano”. Naquele momento eu senti-me do tamanho de uma formiga. Quantos de nós não comem chocolate todos os dias? Quantos de nós não têm sempre dinheiro na carteira que permite entrar em qualquer lugar e comprar o que nos apetecer? Esta história fez-me pensar nas minhas prioridades, olhar para as minhas opções e sentir-me agradecida por tudo o que tenho! Hoje em dia só nos preocupamos com as coisas que têm preço e há uma necessidade gigante de mostrar posição social como se fossemos melhores pessoas consoante a marca que trazemos naquilo que vestimos… Isto sim, são murros no estômago e que nos deixam a refletir no que realmente importa.

OP - Se "Grão" fosse um livro qual seria o título?
LF - Poderia pensar em imensos títulos, mas o que me vem logo à cabeça é “Grão: como dar uma volta de 180º à sua vida”!
Como já disse anteriormente só quem faz parte do projeto consegue entender o que quero dizer com este título porque tenho perfeita consciência de que para os meus amigos e familiares, por mais coisas que diga, é sempre tudo muito abstrato e difícil de compreender. O Grão mudou a minha vida, por completo, fez-me crescer a todo os níveis e colocou ainda mais visíveis todas as coisas em que acredito e sei que são a minha essência. É um projeto exigente, longo e é preciso uma gestão muito grande de horários para que nada fique por fazer, mas ao mesmo tempo, é um projeto que me desafia todos os dias e me coloca alerta para servir os outros. Há pouco tempo a Mariana, Diretora do projeto, dizia num discurso dos nossos eventos que o Grão nos coloca uma proposta concreta de vida e não deixa de ter razão: aqui somos desafiados a dar-nos, por inteiro, e com todo o amor que temos sem olhar a quem, confiando naquela que é a vontade de Deus para nós. Para quem está de fora isto parece muito utópico, mas se se deixarem desafiar por este projeto tenho a certeza que acabarão por sentir o mesmo. 

OP - Que género de apoios as pessoas podem dar a este projeto?
LF - As pessoas podem ajudar-nos através de apoios logísticos ou em género para a realização dos eventos de angariação de fundos assim como com a presença nesses mesmo eventos (basta que estejam atentas à nossa página do Facebook), com donativos em dinheiro passíveis de dedução para o IRS através do NIB: 003600009910588981022 e/ou ainda, através de patrocínios de empresas ou a título pessoal com materiais e alimentos que se possam levar em missões (material escolar e de escritório, repelentes e medicamentos, enlatados e alimentos em pó, como é o caso de papas, gelatinas, leite e chás). Há uma série de formas de ajudar e todas elas são muito bem-vindas e, garanto, farão a diferença na vida de alguém.
Apelo ainda à presença de todos no espetáculo de hoje, pelas 21h, no Casino de Espinho. Podem adquirir bilhetes na entrada ou reserva-los para grão.af@gmail.com, têm um custo de 4 euros que revertem na sua totalidade para o projeto. Vai ser uma noite bastante divertida e cheia de sorrisos!

OP - Um pôr do sol em Moçambique terá o mesmo sabor que um de Espinho?
LF - O pôr do sol é para mim um pequeno prazer da vida e, quem é de Espinho, foi abençoado por um areal que permite disfrutar de momentos de cortar a respiração não só pelo ambiente, mas também pelo cheiro tão característico e que nos faz sentir em casa. Não sei se terá o mesmo sabor, mas quero acreditar que se tiver a oportunidade de o experienciar, me sentirei em casa e mais perto das minhas origens.

OP - Obrigado.
LF - Obrigada eu por todo o carinho e disposição para conhecer um pouco daquilo que é O Grão!

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