"Literariamente falando" - A Casa com Jardim - 2º Capítulo



Carminho, deambulava no apartamento da baixa, fechou a porta a chave, desceu ao primeiro piso e tocou à campainha:
- Amiga, preciso de ti.
- Carminho, a que se deve a honra? Esqueceste-te de comprar sal?
- Não, tonta! Preciso de alguém para desabafar.
- Já vi que o Eduardo não está. Onde anda?
- É por causa dele que vim. Estás pronta? Vamos sair?
- Sair? Tu estás bem, Maria do Carmo?
- Não! Estou péssima! Por isso mesmo é que quero sair!
- Dá-me cinco minutos, visto-me num instante.

Do armário da sala, Carminho abriu a porta envidraçada e pegou num copo de pé alto. Estava tão desorientada que acendeu um cigarro que se encontrava no maço em cima da mesa redonda. Uma garrafa aberta de tinto “Crasto Superior” figurava por cima da toalha.
- Importas-te que fume?
- Desde quando é que tu fumas?
Deu um gole, e Lu perguntou-lhe pelo vinho:
- Que tal? É bom, não é?
- Um copo não me chega! Preciso de uma garrafa.
- Bem, vamos é sair que só dizes disparates. Onde queres ir?
- Sei lá, vamos até à Filipa de Lencastre, pode ser que esteja lá o príncipe dos nossos sonhos.
- E o Eduardo?
- Que tem ele... esquece-o! É o que quero fazer.


Desceram as escadas do prédio à pressa, uma com vontade de fugir, a outra com vontade de a chamar à razão. Lu era sem dúvida um porto de abrigo para Carminho e mais do que nunca precisava disso. Entraram no primeiro restaurante daquela praça com muitos estrangeiros, pediram um mojito e uma caipirinha. Entretanto, Carminho foi à casa de banho para colocar um pouco de base. Sentia-se feia. Quando regressava, já Lu tratava da sua hipotética solidão com um dinamarquês que estava de visita à cidade.

- Amiga, arranja um que viva aqui perto, sempre podes apagar o fogo mais depressa.
- Xiu! Já viste se ele percebe?
- Ele só percebe a língua dele. Olha-me que gato!
- Carmo, please! Comporta-te.


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