"Literariamente falando" - A Casa com Jardim - 3º Capítulo



Nos dias em que era obrigado a escrever a crónica “Lugares comuns” Eduardo não conseguia sorrir, tornaram-se tão chatas aquelas palavras... Naquela manhã saíra cedo com o Book, cansara-o o suficiente para que depois dormisse aos seus pés no escritório. Depois de deixar a Francisca na estação de Campanhã desceram até ao parque da cidade, começaram o passeio na entrada sul junto à Avenida da Boavista. Longe do jornal e com as baterias renovadas de uns dias em Ermelo, Eduardo encontrou a tranquilidade e vontade de escrever uma nova crónica. Acendeu um cigarro, colocou Verdi na coluna de mesa e começou:

Parecem banais todas e quaisquer palavras que escrevo agora. Sinto-me farto dos lugares comuns, talvez gostem de saber que estou num lugar perfeito. Tenho vontade de fugir dos monumentos que já conheço de cor, vocês também deviam procurar coisas novas. Novos amores, novas aventuras. Sei lá. Quero que o meu cão volte a ser cachorro para o ter no meu colo horas a fio. Falta-me um filho? Duas princesas? Se calhar! Quero escrever, mas quero mais do que isso: quero viver. Não quero que as pedras do caminho me derrubem, nem sequer penso em pedir desculpa por aquilo que não fiz. Quero que o mundo se torne mais bonito, a cores. Estou farto do branco e preto. Hoje sinto falta de tudo, até da mulher que me diz que não me quer, que não me ama. Estou sem paciência... Lugares comuns? Porra!! Fora com eles!


O chefe recebeu o texto e respondeu que teria de ser revisto; essas palavras não caíram bem em Eduardo, em letras maiúsculas escreveu “REVÊ TU!”. O telemóvel tocou entretanto, no outro lado do apartamento. Entrou no quarto, reparou na enorme pilha de roupa e a cama desfeita. Retribuiu a chamada à mãe que a novecentos quilómetros de distância o acalmou com uma simples conversa. Desligou quando percebeu que Eduardo recuperara a voz, sem embargar verbos ou palavras. Uma casa vazia e uma vida recheada de “lugares comuns”. 

Share:

0 comentários