"Literariamente falando" - A Casa com Jardim - 4º Capítulo


Regressado de Ermelo há pouco mais de vinte e quatro horas, Eduardo retomava aos poucos o gosto pelo frenesim da cidade cosmopolita. Ao longe ouvia as buzinas, passos de pessoas apressadas e eles... sem pressa. Segurou-lhe na mala, desceram de escadas rolantes e regressaram ao hall da estação de Campanhã. Quando cruzaram a porta envidraçada, Eduardo não viu qualquer bilhete branco no para-brisas, ufa! Sem multa! O Book, ainda na mesma posição abanava a cauda. Afagou-lhe o focinho. Ligou o carro, subindo a rua íngreme até à Avenida Fernão de Magalhães. No semáforo virou à esquerda, passando pelo Hotel Vila Galé, a última vez que Francisca passara no Porto ficou no quarto 208 para uma entrevista em exclusivo para a Revista “Olhares” com o fotógrafo de paisagem urbana, Daniel Alves. Dali ao apartamento era rápido, parou no lugar de garagem, abriu a bagageira e o Book saltou, aproveitou a oportunidade para um xixi no pilar cinzento. Subiu as escadas, deixou água fresca na gamela e deu-lhe dois biscoitos – os seus preferidos – quando o fazia Book sabia que o ia deixar por uns momentos.
- Volto já!
Francisca, encostada ao carro fumava um cigarro com as mãos pouco firmes.
- Não sabia que fumavas.
- É só de vez em quando, para me armar.
- Onde queres ir? Tomar o pequeno-almoço com uma vista privilegiada?

- Quanto mais melhor...
Ligou a rádio mal entrou no carro para disfarçar a falta de assunto, uma viagem curta, o semáforo na Batalha avariado, à sua frente apenas um carro em ritmo de passeio de domingo. Desceram pela 31 de Janeiro, Francisca pegou no telemóvel e tirou uma fotografia da emblemática obra de Nasoni – a Torre dos Clérigos. Parou o carro no antigo parque dos Clérigos e entraram no Costa. Ainda que desse uma vista de olhos pelos bolos bonitos da montra, Francisca pediu meia de leite e um muffin de chocolate. Eduardo ficou-se pelo café e uma garrafa de água natural.
- Continuas igual – disse sorrindo, Eduardo.
- Não notas nada diferente em mim?
- O cabelo está na mesma...
- Pintei as unhas – soltando uma gargalhada.
- Não reparei nesse pormenor.
- E então... como vão as coisas por aqui?
- Normais, acho eu. A Carminho continua a ser de fases, discutimos várias vezes, concordamos em algumas coisas, ela falou-me em casamento.
- E tu? Não queres?
- Estou confuso. E se for para continuar assim?
- Assim como? Com discussões? Todos os casais passam por isso.
- Às vezes sinto-a como uma grande parte de mim, noutros dias quase que não a suporto.
- Eduardo, és romântico por natureza. Incorrigível – eu acho.
- Isso é mau?
- Nem todas as mulheres gostam disso.
- Que devo fazer?
- Arrisca. Se não der certo pelo menos sabes que tentaste. Eu sou mais realista, um pouco mais fria, menos sonhadora. Sinceramente houve momentos da faculdade que me via casada contigo... hoje não sei se és a pessoa indicada para mim.
- Então... quê!? Fazes trezentos quilómetros para me ver cair?
- Não, pelo contrário. Quero-te ajudar a continuar a viver. A Carminho merece-te, foram feitos um para o outro.
- Mas ela é de luas...
- Eu também! Eduardo, não sou perfeita como tu me imaginas. Tenho defeitos, feitios, manias. Queres que continue?
- Não... não precisas. E se houver uma hipótese de sermos felizes?
- Porque haverá de resultar desta vez? Continuamos longe... trezentos quilómetros e um mundo...
- Posso mudar para Lisboa.
- Não, não vás por aí. Dizes isso porque estás de cabeça quente.
- Sabes? Com essa conversa fazes-me lembrar a Carminho. Gosto tanto de estar contigo.
- Nós tivemos o nosso tempo! Não existe uma alma gémea, apenas o tempo certo.
- Não voltavas a cometer as mesmas loucuras? Os mesmos excessos? Os mesmos erros?
- Vês!? Até tu admites que errámos! Acho que isto é simples... o mundo fez tudo para que nos juntássemos, mas não agarrámos a oportunidade.
- Estamos velhos?
- Não. Só acho que o nosso tempo acabou.
- Não acredito que não penses em mim. Não tens saudades das nossas aventuras? Dos fins-de-semana a dois?
- Foi lindo... enquanto houve um nós.
- Tens medo de quê?
- De ti. De mim, de tudo. Sou medricas ao ponto de não ser feliz por ter medo do mundo. Se calhar amanhã quando eu chegar a Barcelona vais estar nos braços da Carminho.
- Desculpa. Barcelona?  

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