"Literariamente falando" - A casa com Jardim - 5º Capítulo


Carminho ligou para a Lu a perguntar se lhe queria fazer companhia na entrega de uma refeição quente aos sem-abrigo. Reticente, do outro lado da linha disse que tinha coisas para tratar mas que um dia teria muito gosto. Calçou umas sapatilhas confortáveis, roupa quente e deixou o telemóvel no bolso do casaco sem som. Combinou encontrar-se com Benedita no Café Ceuta. Pediu uma chávena de carioca de limão, sentia-se nervosa. A carrinha já não era nova, antes pelo contrário, assim que pararam junto à estação de metro da Trindade, a alma de Carminho foi inundada por um misto de vergonha e medo. Medo no sentido de perguntar mais do que era necessário a quem tivera um azar na vida.

Um homem de chapéu roto tinha um cigarro meio apagado no canto da boca, chamava-se Mário e era músico – em tempos, conceituado artista. Carminho cumprimentou-o com um sorriso franco, agradeceu a sopa e sentou-se a num vão de escadas. O primeiro dia passou-o com grandes dificuldades, ao segundo começou a fazer pela vida a descobrir balneários públicos, as sopas mais baratas. O único vício que tinha era o tabaco, quando enchia salas para concertos a solo de piano ou com orquestra não dispensava um balão de Vinho do Porto. Nessa noite ao chegar a casa, Carminho perguntou ao pai qual o sentido da vida, a conversa levou-o a dizer que nem todos tinham a sorte de nascer numa família saudável e afortunada e que azares não são raros. Disse-me ainda que lembrava perfeitamente de Mário, tocara por algumas ocasiões em congressos na Ordem dos Médicos. Subiu as escadas para o quarto e da mesinha com vista para o mar escreveu aquele que foi o primeiro post do blog “O Obturador do Pensamento”:

Está frio, a noite vai alta. O trânsito demora a passar. Uma criança brinca indiferente às lágrimas do pai a pedir sem vergonha, a cara povoada de rugas e a barba deixa-lhe um aspeto velho. Batatas, cenouras e couves transformam-se em sopa, pedem na “sede” que saia a ferver; para muitos é a única refeição do dia. Mário diz-se incapaz de sentir os dedos em diversas ocasiões. Divaga lentamente indiferente ao barulho dos carros na calçada, ninguém abranda para ajudar. Enaltece o trabalho da associação que o acolheu de forma séria, o mais séria possível. Diz ser mais uma personagem num livro de prateleira dourada, onde um príncipe encantado chega num cavalo branco, a princesa é uma autêntica barbie. Mário não sabe em que dia da semana está, para ele são todos iguais... as mesmas ruas, as mesmas indiferenças, a mesma cidade...
Carminho passou largos minutos à janela, enroscou-se na manta e soprou para a caneca que tinha chá de cidreira. Adormeceu prometendo a si própria ser uma Carminho diferente dali em diante.

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