"Literariamente falando" - A Casa com Jardim - 7º Capítulo


Sentada daquela maneira, no café da Junta de Freguesia podia ver o mundo lá fora, pouco ou nada lhe interessava, estava demasiado out do mundo para ver o que lá estava. Não passavam muitos minutos das seis, era uma data especial, ou antes, dia que toda a gente aproveitava para fazer parvoíces e vestir roupas de assustar. A chávena já só tinha resquícios do vício que há muito ganhara, um curto, antes do jantar, logo depois do lanche. Por norma um iogurte líquido e meia torrada. Naquela tarde estava particularmente tensa para comer bem, o iogurte soube-lhe mal, ou o dia das bruxas era muito assustador para lhe tirar o apetite? Sentiu-se parva, a ponto de se deslocar à casa-de-banho, lavar a cara e pregar a si própria um estalo para pensar a partir dali com clareza, na ausência do Eduardo.
Não era hábito de nenhum deles chegar atrasado aos encontros, isso ficou logo bem expresso nos primeiros dias de namoro. Eduardo sabia que às sextas-feiras (de quinze em quinze dias) tinha que dar um “desconto” à Carminho que gostava de se demorar na piscina do ginásio. De costas para a entrada principal do café, não deu pela chegada do Eduardo, ele tinha pés de lã, apesar do número quarenta e três das sapatilhas.
- Então, não me dás um beijo?
- Um beijo? Só – perguntou sorrindo e piscando o olho. Ajeitou o cabelo com a mão direita, um gesto que deixava o Eduardo em suspiros.
- Saudades... são muitas.
- Pois, isso acredito! Como estás?
- Mal. Na merda. Volta!
- Ei, calma!
- Que mal te fiz para saíres assim da minha vida? Carminho, já faz muito tempo...
- Ei, que exagero. Foram só uns dias.
- Achas mesmo? Até parece que não sabes que sou apaixonado por ti.
- Essa tua forma de amar... não arranjaste um passatempo, entretanto?
- Que maneiras são essas, Maria do Carmo?
- Tens razão, desculpa.
No ar pairou um silêncio estranho, Carminho não disse nada, o Eduardo ficou com o ar impávido e sereno de sempre, como se não tivesse nada a esconder, nem tinha. Pediu um café, puxou do cigarro, ainda fumava a mesma marca desde os tempos da faculdade, a Carminho reparou no relógio que trazia.
- Estou a ver que os teus hábitos se mantêm.
- Incomodam?
- De todo, meu querido. A saúde é tua, tu é que sabes o que andas a fazer.
- Já reduzi. Se é isso que queres saber. Carminho, a sério, quando voltas?
- Qualquer dia apareço de surpresa e caio nos teus braços, isto, se a Francisca não estiver por lá.
- Casmurra!
- Não! Chama-me tudo menos isso. Ainda me amas?
- Mais do que no primeiro dia.
- Posso confiar?


Aquelas palavras não caíram bem em Eduardo. Colocou meio pacote de açúcar no café, deu duas passas no cigarro e disse:
- Muito bem, um dia vais voltar para mim. Volta o quanto antes. Vou buscar o Book a casa dos meus pais, já lá está desde ontem – levantou-se da mesa e beijou-a, um beijo prolongado como o primeiro naquele banco de jardim.
Carminho deixou-se levar, e que saudades tinha daqueles lábios.

Share:

0 comentários