Recados antigos - 4

Na tranquilidade deste jardim, que desde sempre foi nosso, vais ficando e respirando calmamente... Vou ficar a olhar o teu sorriso, bloquear pensamentos maus e infiéis nesse teu olhar, vou-te dizer palavras que jamais ouviste da minha boca. Daquela janela surgem sons invulgares de um alegre violoncelo, coisa que não dispensas ouvir. Sempre que te encostavas a mim e ficavas com o teu copo de Bailey´s fingias tocar a meu lado. Os sons da cidade não te incomodam, agarras a minha mão para que eu me deixe ficar a teu lado, a tua pele sempre causou em mim leves mas sinceros arrepios. Fecho os olhos, mas antes olho-te e digo palavras que não esqueço de te repetir... dia após dia, hora após hora, sempre que me apetece vou dizer aquilo que te faz sentir bem e cada vez mais (se é que é possível) apaixonada. O mundo vai adormecendo, a cidade ficando deserta mas deixamo-nos ficar, sempre quisemos ser os últimos a sair daquele lugar. O Porto adormece, o meu amor renasce e cresce a cada momento vivido a dois neste espaço que não tem nome, mas ao qual demos, o nosso, como sinal do amor, que sempre existiu. 

In "Retrato frio" de Francisco Milheiro
Setembro 2011

Share:

0 comentários